27 de jul de 2010

Passando a minha espiritualidade a limpo



“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.” Salmo 139,23-24

Nossa espiritualidade não pode ser legitimada pelo simples exercício das chamadas “praticas espirituais”. Quando nos dedicamos a oração, a meditação ou ao jejum é essencial perguntarmos sobre as intenções mais profundas do nosso coração.

Infelizmente, algumas destas ações tão necessárias no cotidiano de nossa experiência com Deus, podem ser fruto de motivações pouco nobres de nossa alma.

Nem sempre estamos conscientes desta realidade interior e é preciso fazer a oração do salmista: Sonda ó Deus e vê se há em mim algum caminho mau !!

Eis algumas destas motivações que precisam ser filtradas de nossa espiritualidade:

1 - Barganha

A espiritualidade que se expressa como instrumento de negociação com Deus

Acontece quando o meu objetivo ao buscar um relacionamento com Deus é conseguir algum favor dele. Estou, na verdade, interessado em bens e favores e assim, estabeleço com Deus uma relação de troca.

A espiritualidade aqui é uma moeda de troca com Deus. E eu pergunto: O que agrada a Deus? Que tipo de presente ele gosta? Oração, cânticos, dízimos e etc. Assim eu dou a ele o que ele gosta e ele me dá aquilo que eu desejo.


Filtro: amor incondicional

Preciso, então, passar minhas motivações pelo filtro do amor incondicional por Deus. Este amor me ensina a buscar um relacionamento com Deus independente dos benefícios que esta relação poderá me trazer.

“Mesmo não florescendo a figueira, e não havendo uvas nas videiras, mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos, ainda assim eu exultarei no SENHOR e me alegrarei no Deus da minha salvação.” Habacuque 3,17-18

2 – Exibicionismo

A espiritualidade que se expressa como instrumento de ostentação

Nesta situação o que mais me atrai é o status de espiritualidade. Meu desejo mais íntimo é ser admirado como uma pessoa espiritual. A aparência externa passa a ser o mais importante e a minha espiritualidade se torna uma vitrine para os outros.

“Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa.” Mateus 6,16

Filtro – Anonimato

Jesus foi muito simples e direto em suas palavras, para libertar a minha espiritualidade do exibicionismo, nada melhor que a prática do anonimato.

Mt 6, 6 Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.

3 - Penitência

A espiritualidade que se expressa como instrumento de auto-punição

Existe uma crença de que o corpo precisa ser castigado para que nossa alma seja liberta. Neste caso, o presente que agrada a Deus é o sofrimento humano, sendo este sofrimento um instrumento para expiar pecados. Meu objetivo ao alimentar este tipo de espiritualidade é eliminar o peso da culpa através da auto-punição.

Se jejum me traz sofrimento e castiga meu corpo, então é espiritual. Se oro de joelhos por horas enquanto eles doem, então, estou sendo espiritual. Se numa atitude de sacrifício eu participo de uma vigília passando a noite em claro e orando, isto é espiritual.

Filtro – A graça e o perdão de Deus

Se me identifico com a espiritualidade de penitencia, é porque preciso mais da graça e do perdão de Deus. O evangelho da graça nos ensina que o único sacrifício que expia pecados e que é aceito por Deus é o de Cristo na cruz.

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça.” I João 1,9

4– Protesto

A espiritualidade que se expressa como instrumento de protesto contra Deus

Este é o tipo de jejum, “greve de fome”, onde eu digo para Deus: “O Senhor me abençoa ou eu me mato.” A situação é geralmente de total desespero e o tom é de ameaça: “Deus, o Senhor não sabe o que eu sou capaz de fazer, se o Senhor não me atender, eu não me responsabilizo pelos meus atos.”

Tento colocar Deus na parede, pressionando-o a agir a meu favor. São comuns ultimatos do tipo: Deus tem um mês para mudar o meu marido ou eu largo dele. Se Deus não fizer um milagre na minha vida agora, eu nunca mais faço uma oração.

Peneira – A fé que se expressa na obediência

Eu me liberto da espiritualidade de protesto quando aprendo que a fé também se expressa na obediência. Aprendo a dizer ao Pai, como Jesus, “ seja feita a tua vontade” e então, espero com submissão e paciência, o agir do Pai, sem abrir mão dos meus princípios e de minha relação com Ele.

“Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus”. Mateus 4,7

5 – Bem-estar pessoal

A espiritualidade que se expressa como instrumento do bem estar e equilíbrio pessoal


Este é o jejum do tipo “dieta”, eu jejuo e ainda mantenho forma. A espiritualidade do bem-estar e equilíbrio pessoal é bastante popular hoje em dia. Neste caso, sentir- se bem é espiritual, e esta espiritualidade até os médicos recomendam.

A busca do bem-estar através da espiritualidade, não é necessariamente prejudicial ou errada, só não é a razão legítima pela qual desenvolvemos nossa espiritualidade.

O jejum é útil para desintoxicar o organismo e também pode ajudar a emagrecer; a oração ajuda na concentração; a leitura bíblica ajuda no desenvolvimento da mente e no exercício da memória e a meditação alivia o estresse, mas estas não são as razões para qual praticamos estas coisas.

Filtro – O sofrimento

O problema da espiritualidade do bem-estar é que ela não tem nenhum espaço para o desconforto. Se mantivermos esta postura, desprezaremos coisa valiosas que Deus tem para nós, mas que não estão comprometidas com o meu bem-estar imediato.

O chamado cristão passa em alguns momentos por: abstinência, resignação, altruísmo, sacrifício e entrega incondicional. Estas coisas nem sempre são agradáveis, mas fazem parte do exercício de nossa espiritualidade.

Mt 16,24 Então Jesus disse aos seus discípulos: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.

Como anda a minha espiritualidade?

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.”

A oração do salmista reflete a necessidade que tenho de estar constantemente purificando minhas intenções ao me aproximar de Deus. Identificando e confessando o meu egoísmo e egocentrismo e criando espaço para uma espiritualidade que deseja desfrutar de um relacionamento saudável com Deus.

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