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13 de ago. de 2013

PUXA UMA CADEIRA Ó MINH´ALMA !



Diferente do que diz a teologia da prosperidade, que promete felicidade intensa, júbilo permanente e um estado constante de êxtase e progresso espiritual; na verdade, o cristão está sujeito a crises e oscilações em sua fé e espiritualidade.

Os salmos têm sido uma fonte muito rica de exemplos de homens que expressaram com muita sinceridade suas frustrações e decepções diante de Deus.Tomemos como exemplo  o Salmo 42:

 (3-4) "Minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite,  ... Quando me lembro destas coisas choro angustiado." (10) "Até os meus ossos sofrem agonia mortal ..."

Pinçando algumas expressões do salmista vemos claramente um quadro de crise. A tristeza dá o tom dominante e o choro é uma presença contante. Até mesmo o apetite se foi, uma vez que o salmista agora se alimente de lágrimas.  Ele demonstra uma sensibilidade a flor da pele, quando a simples lembrança de outros tempos o faz chorar. Há um abatimento geral e todo seu corpo sofre a sua angustia.

Mas é quando olhamos mais atentamente os versos 3 e 4 que persebemos a natureza espiritual desta crise:

(3-4) Minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite, pois me perguntam o tempo todo: "Onde está o seu Deus? " Quando me lembro destas coisas choro angustiado. Pois eu costumava ir com a multidão, conduzindo a procissão à casa de Deus, com cantos de alegria e de ação de graças entre a multidão que festejava.

Temos aqui a descrição de um crente em crise. Alguém cuja a fé está extremamente abalada. No centro de sua angustia esta uma pergunta que vem de fora, mas encontra eco dentro do seu coração: "Onde está o seu Deus?" A dor que esta pergunta provoca no salmista somente se justifica pelo fato de que em seu coração ele faz o mesmo questionamento.

A crise se agrava, uma vez que o salmista sente falta de algo que não pode ser entendido pelos descrentes, ele sente falta da comunhão de seus irmãos e da alegria na presença de Deus. Neste sentido, o crente em crise sofre mais que um descrente. Ele tem em seu coração a memória de um anseio que só pode ser preenxido pelo próprio Deus.

 (1-2) Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando poderei entrar para apresentar-me a Deus?

Assim, o salmista angustiado busca reagir a sua crise através de dois exercícios espirituais. Primeiro ele conversa consigo mesmo e em segundo lugar ela ora ao seu Deus. Vamos nos ater aqui somente ao primeiro exercício, a importância de conversar consigo mesmo.

(5-6) "Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e  o meu Deus"

Neste momento, o salmista não está falando com Deus, mas falando com a sua alma, a narrativa parece  demonstrar que Deus permanece em silencio neste processo, ele não entra nesta conversa. Alias, um dos sintomas de uma crise espiritual é a percepção do silencio de Deus. Neste momento onde Deus parece distante preciso agora chamar a minha alma a razão.

Lloyd Jones comenta ao expor este salmo que "falar com o nosso eu é diferente de deixar que o nosso eu fale conosco", ou seja se deixarmos nossa alma amargurada falar conosco, ela provavelmente repetirá as palavras venenosas e malignas, "Onde está o seu Deus?", mas quando decido falar a minha alma, posso exorta-la: "Ponha a sua esperança em Deus, pois ainda o louvarei!"

"Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim?" O salmista permanece se questionando, se há mesmo razão para tanta tristeza e angustia.

A ansiedade possui o poder de tomar conta do nosso coração mesmo que não existam razões para isto. A ansiedade é como um medo sem objeto definido, é a apreensão sem um motivo exato; é a falta daquilo que não sabemos exatamente o que é.

Em nossa crise não enxergamos as coisas com elas de fato são, e também não conseguimos enxergar a ação de Deus em nossas vidas, por isso precisamos chamar a atenção do nosso coração para que ele olhe na direção certa.

Questionar a si mesmo é um exercício espiritual fundamental na caminhada cristã, como parafraseou o poeta Stenio Marcius:

"Puxa uma cadeira ó minh´alma
Que eu quero te perguntar
Porque me roubas a calma
Me botas tristeza no olhar?
Vamos entrar num acordo,
Vida tranquila viver.
Lembra daquilo que o mestre falou:
A minha graça te basta!"

O pastor Ricardo Barbosa em seu artigo "perguntas que equilibram as emoções" nos sugere algumas outras perguntas bíblicas e terapêuticas, que o cristão em crise deve fazer a sua alma:

Se Deus é por nós, quem será contra nós? Romanos 8:31
Qual a razão de tanto medo e ansiedade, se de fato entendo que Deus está do meu lado?
Existe alguém ou alguma coisa que seja maior do que Ele?

Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas? Romanos 8:32
Se Deus demonstrou por mim um amor capaz de dar seu próprio filho, poderia eu ousar duvidar deste amor? Existe alguma coisa da qual sinto falta que seja maior do que esta dadiva de Deus?

Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Romanos 8:33
Se de fato fui perdoado por Deus, porque ainda sinto o peso da culpa? Porque ainda me sinto acuado pelos meus próprios pecados?

Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Romanos 8:35
Por que me sinto só, uma vez que as inúmeras circunstancias adversas somente servem para me aproximar ainda mais de Cristo?

Duas vozes ecoam no coração de um cristão em crise, uma voz precipitada e rancorosa insiste em perguntar, "onde está o seu Deus", a  outra pacientemente convida,  "ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus." É preciso decidir a qual voz atenderemos.



Recomento que você ouça a canção "Acordo" do compositor Stenio Marcius, que traduz em bela poesia o que tentamos expor neste texto:

Parte dos argumentos deste texto foram extraídos do livro "Depressão Espiritual" de D. M. Lloyd Jones e do artigo "perguntas que equilibram as emoções" do Pr. Ricardo Barbosa.
http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/322/perguntas-que-equilibram-as-emocoes

6 de ago. de 2013

ESGOTAMENTO ESPIRITUAL



 
 
Será que um cristão sério e sincero pode ter um esgotamento espiritual?

 "E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos. Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé." Gálatas 6:9-10

A verdade é que mesmo depois de nossa conversão e tendo a presença do Espírito Santo em nós, poderemos passar por momentos de oscilação em nossa fé. Até aqueles que estão comprometidos com Jesus e desejosos em manter um constante progresso em suas vidas, muitas vezes vão passar por momentos de crise espiritual.

Elias teve medo e fugiu para salvar a vida ...  Em Berseba de Judá ele deixou o seu servo e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. "Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida;" (I Rs 19,3-4)

Elias foi um grande profeta, um homem que experimentou o poder de Deus como nenhum outro na história do povo de Israel, mas caiu em uma crise profunda após o famoso confronto com os profetas de Baal no Monte Carmelo. Elias teve um ataque de medo, fuga e até mesmo o desejo da morte. Elias teve uma crise de fé.

Quando falamos em esgotamento espiritual ou depressão espiritual, título escolhido por Martin Lloyd Jones para um de seus livros, não nos referimos simplesmente a depressão, estresse ou cansaço de um ponto de vista teológico ou com uma linguagem evangélica. Mas nos referimos a uma crise real de fé, um abalo em nossa espiritualidade, afetando nossa santidade e relacionamento com Deus.

Quando Paulo nos alerta "E não nos cansemos de fazer o bem," ele nos fala do perigo real de uma crise moral muito séria. Em algum momento podemos nos cansar de fazer a coisa certa; podemos perder as forças em nossa luta contra o mal, e ainda perder o desejo de estar perto de Deus.

Um cristão que passe por um esgotamento espiritual deverá apresentar alguns sintomas bastantes característicos: Um cansaço e um desanimo intenso, especialmente ao que se refere a Deus e a Igreja. Consequentemente, a falta de comunhão e o desejo de isolamento acompanharão a crise daqueles que como Elias sentem o desejo de fugir para uma caverna e não encontrar ninguém pela frente.

Estas pessoas também percebem em suas vidas uma interrupção em seu progresso espiritual, sentem-se estagnadas, não conseguem mais aprender ou seguir em frente. Sua fé está enfraquecida, algo que é difícil de admitir, mas estão com grande dificuldade em crer nas promessas da Bíblia e na ação de Deus em suas vidas.

Não poucas vezes também sofrem de uma espécie de síndrome de perseguição, sentindo que todos a sua volta estão contra elas e que ninguém as ama, o que inclui a Deus, infelizmente. E como um escudo de autodefesa, podem ainda desenvolver um espírito crítico aguçado, e passar a disparar sua metralhadora rancora em direção a todos a sua volta.

Crises como esta podem ser bastante intensas e atingir uma pessoa de forma repentina; como talvez tenha sido o caso de Elias. Mas podem também ocorrer de forma gradual e lenta, sem que a pessoa perceba que está caminhando para um fosso espiritual.

Nesta texto a minha intenção é somente introduzir o tema para a nossa reflexão. Quero posteriormente analisar alguns textos bíblicos e tratar das causas e também trazer algumas vacinas bíblicas em relação a estas doenças espirituais.

Mas quero antes de terminar, deixar dois princípios cristãos para aqueles que gostariam de reagir a um estado de esgotamento espiritual, ou ainda ajudar alguém que passe por esta situação.

1 - Identifique o seu pecado e confesse ao Senhor

Talvez esta seja a grande diferença entre a abordagem teológica das doenças da alma e outras abordagens. A palavra de Deus nos assegura que o principal culpado pela nossa crise espiritual, somos nós mesmos. Não somos simplesmente vitimas de um mundo que quer nos oprimir, mas nós mesmos é que decidimos viver segundo as regras deste mundo. A verdade é que nos descuidamos em algum momento da caminhada e nos desviamos do caminho de Cristo.

Conforme Tiago: "Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: "Estou sendo tentado por Deus". Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. Cada um, porém, é tentado pela própria cobiça, sendo por esta arrastado e seduzido." Se eu estou desconectado de Deus, longe da sua comunhão e com minha fé enfraquecida, é porque tenho um pecado para admitir e confessar. E esta é a única forma de começar o meu caminho de volta.

2 - Não obedeça os seus sentimentos, obedeça a Palavra de Deus

Precisamos entender que quando estamos em crise nossas mentes, nossas emoções e nossos sentimentos estão confusos e contaminados e por isso não podemos confiar inteiramente neles. Precisamos de um padrão externo a nós para nos guiar para fora de nossa crise, e este padrão é a Palavra de Deus.

Quando estamos em crise espiritual não sentimos nenhum desejo de orar ou ler a Bíblia e nem mesmo de encontrar pessoas. Mas não devemos obedecer nossos sentimentos; o que devemos fazer é agarrar o pouco de fé que ainda nos resta obedecer esta vontade externa a nós que é a vontade de Deus;  ela nos manda orar, encontrar com irmãos e ler a sua Palavra.

Estas pequenas atitudes não são garantia de que teremos nossa fé e espiritualidade de volta; mas quando respondemos de forma prática ao chamado divino, nos colocamos novamente neste ambiente da graça de Deus, onde nossa fé pode ser reaquecida.

Quando nos faltar a fé ainda teremos o recurso da obediência.

"E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos. Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé."  Gálatas 6:8-10


Para maior aprofundamento no assunto "esgotamento espiritual" recomendo o livro "Depressão Espiritual" de D M Lloyd Jones, Ed PES e série de palestras "Esgotamento Espiritual" do ministério Labri Brasil  http://www.labribrasil.org/palestraslabrimp3.htm

11 de fev. de 2011

TROCANDO O BANQUETE POR BANANAS




“Buscai ,pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” Mt 6,33


Vivemos o dilema entre buscar o Reino de Deus e buscar as “demais coisas”; embora Jesus nos chame para um reino espiritual, prometendo que nada nos faltará, morremos de medo de aceitar este convite e ficar sem estas “outras coisas”.

Mas Jesus nos alerta que o nosso critério de valores está bem equivocado. Na verdade, estamos apegados aquilo que não tem valor real e desprezamos perolas e tesouros que o Reino nos oferece.

Armadilha para Macacos

A história é muito antiga, mas não menos curiosa. Algumas tribos africanas utilizam um engenhoso método para capturar macacos.

Como estes são muito espertos e vivem saltando nos galhos mais altos das árvores, os nativos desenvolveram o seguinte sistema: pegam uma cumbuca de boca estreita e colocam dentro dela uma banana.

Em seguida, amarram-na ao tronco de uma árvore freqüentada por macacos, afastam-se e esperam. Isso feito, um macaco curioso desce, olha dentro da cumbuca e vê a banana. Enfia sua mão, apanha a fruta, mas como a boca do recipiente é muito estreita, ele não consegue retirar a banana.

Surge um dilema: se largar a banana, sua mão sairá e ele poderá ir embora livremente, caso contrário, continua preso à armadilha.

Depois de um tempo, os nativos voltam e tranqüilamente capturam os macacos que teimosamente se recusam a largar a banana. O final é meio trágico, pois os macacos que são capturados acabam indo para a panela.


Enquanto estivermos cegados pelas bananas que a vida nos oferece, corremos o risco de perder a verdadeira vida. Há um banquete que não encontramos nesta estreita cumbuca que nos oferecem diariamente.

A ironia é que o medo de perder o pouco que temos poderá nos deixar sem nada. O apego demasiado ao passageiro e temporário, pode nos impedir de perceber o eterno.

Uma história de Jesus ilustra perfeitamente este equivoco:

Ao ouvir isso, um dos que estavam à mesa com Jesus, disse-lhe: “Feliz será aquele que comer no banquete do Reino de Deus”.

Jesus respondeu: “Certo homem estava preparando um grande banquete e convidou muitas pessoas. Na hora de começar, enviou seu servo para dizer aos que haviam sido convidados: ‘Venham, pois tudo já está pronto’.

“Mas eles começaram, um por um, a apresentar desculpas. O primeiro disse: ‘Acabei de comprar uma propriedade, e preciso ir vê-la. Por favor, desculpe-me’. “Outro disse: ‘Acabei de comprar cinco juntas de bois e estou indo experimentá-las. Por favor, desculpe-me’. “Ainda outro disse: ‘Acabo de me casar, por isso não posso ir’.

“O servo voltou e relatou isso ao seu senhor. Então o dono da casa irou-se e ordenou ao seu servo: ‘Vá rapidamente para as ruas e becos da cidade e traga os pobres, os aleijados, os cegos e os mancos’. (Lucas 14,15-24)


Todos queremos sempre o melhor para as nossas vidas. Se tivéssemos a convicção de que o Reino de Deus era o melhor, não desejaríamos outra coisa.

Nossas razões e justificativas somente revelam o nosso desinteresse. O Reino nos soa como uma festa pobre e chata, que qualquer compromisso de importância mediana justifica nossa ausência.

Mas o Reino de Deus não se explica, não há como fazer propaganda dele; o Reino de Deus a gente vê e se enxerga dentro dele. Em outras palavras, precisamos de revelação, que os nossos olhos espirituais sejam abertos e vejamos o banquete a que somos convidados.

Eis que estou a porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo. Apocalipse 3,20

Quero com alegria aceitar este convite! Quero desejar este encontro de todo o meu coração. Que o Espírito Santo abra os meus olhos para este banquete maravilhoso que é servido a mesa de Jesus. Quero mais, preciso de mais ! Quero muito mais do que bananas !

7 de jan. de 2011

O QUE NOS FALTA É UM PRAZO DE VALIDADE



“Naquele tempo Ezequias ficou doente e quase morreu. O profeta Isaías, filho de Amoz, foi visitá-lo e lhe disse: “Assim diz o SENHOR: ‘Ponha em ordem a sua casa, pois você vai morrer; não se recuperará’ ”. II Reis 20,1

Este parece ser um chamado constante de Deus para as nossas vidas: “Ponha em ordem a sua casa”. Nesta época do ano em que fechamos nossos “balanços” e viramos uma pagina de nossas vidas, este chamado parece ser ainda mais forte.

Aquela voz que diz, volte para os trilhos, dê mais atenção a sua vida espiritual, dedique-se aquilo que tem maior valor, se faz ouvir com muita nitidez.

Mas estamos acostumados a não dar muita atenção a este chamado, em parte, simplesmente, porque pensamos que temos uma vida toda pela frente para fazer isto.

O que parece nos faltar é um “senso de finitude”, ou seja, entender que a nossa vida aqui é breve e que não temos tempo a perder. Aquilo deve ser feito, precisa ser feito. As coisas mais valiosas da vida, como nossa saúde espiritual e os nossos relacionamentos pessoais, não podem mais esperar.

“Volte e diga a Ezequias, líder do meu povo: Assim diz o SENHOR, Deus de Davi, seu predecessor: Ouvi sua oração e vi suas lágrimas; eu o curarei ... Acrescentarei quinze anos à sua vida.” II Reis 20,5-6

Fico então imaginando como o rei Ezequias procurou viver estes quinze anos de bônus que Deus deu a ele depois de escapar de uma sentença de morte. Provavelmente estes anos foram vividos com mais coragem, muito mais objetividade, e com certeza, com mais responsabilidade.

Na prática, tenho a impressão que o que nos falta para sermos mais obedientes ao chamado de Deus é um “prazo de validade”. Adiamos as coisas mais importantes da vida, como se fossemos “Highlanders” , aqueles personagens de filme de ficção que viviam por milênios, se ninguém lhes cortasse a cabeça.

Que bom seria se eu não precisasse levar um forte susto, como ocorrera com o rei Ezequias, para ouvir o chamado de Deus. Bom seria se fosse necessário somente um convite a reflexão; coisa despretensiosa, que a gente sempre faz nesta época do ano.

Bom seria se eu desse ouvidos ao sussurro suave de Deus com atenção e prontidão; muito bom seria se Ele não precisasse usar de sua voz de trovão que despedaça os cedros, retorce os carvalhos e faz tremer os desertos.

14 de ago. de 2010

A FOME DE DEUS



“Os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando. Algumas pessoas vieram a Jesus e lhe perguntaram: Por que os discípulos de João e os dos fariseus jejuam, mas os teus não? Jesus respondeu: Como podem os convidados do noivo jejuar enquanto este está com eles? Não podem, enquanto o têm consigo. Mas virão dias quando o noivo lhes será tirado; e nesse tempo jejuarão.” Marcos 2,18-20

Uma festa de casamento é sempre um tempo de celebração, comemoramos com a família e nos alegramos com os noivos. Diferente dos dias de hoje onde o casamento pode ser somente uma rápida cerimônia, uma recepção simples, dependendo das condições e vontade dos noivos. As festas de casamento no antigo oriente poderiam durar dias de muita alegria e confraternização. Jejuar durante uma festa de casamento seria completamente inapropriado, uma atitude destoante para uma ocasião tão festiva.

O jejum é uma expressão de busca e inquietação. Não é um momento de orgulho para seus participantes como o casamento, mas ao contrário, é um sinal da mais sincera humilhação.

Na história de Israel o jejum podia expressar períodos de tristeza ou arrependimento. Havia até um jejum anual recordando a destruição do templo de Jerusalém. Também aconteciam outros jejuns coletivos em tempos de grande calamidade como falta de chuvas, epidemias e guerras.

Os jejuns poderiam expressar também a busca de sabedoria e orientação divina, como em muitos exemplos do Novo testamento.

Creio que o jejum seja uma importante lição sobre dedicação e prioridade. Sendo o alimento a nossa necessidade mais básica, praticamente uma necessidade instintiva, a abstinência devocional e voluntária nos ajuda a entender que temos uma necessidade maior. O jejum é a minha confissão de que preciso mais de Deus do que de alimento. Reafirmo que meu relacionamento com Deus é minha prioridade absoluta e a minha necessidade mais profunda.

A metáfora usada por Jesus fala do momento singular em que viviam seus discípulos. Não se pode jejuar durante uma festa de casamento, e não havia razão para os discípulos jejuarem, se Deus, em toda a sua glória, estava tão próximo deles. A única coisa a fazer naquele momento era desfrutar e celebrar aquela presença.

O jejum para o judeu também fazia parte de sua expectativa de redenção e espera pelo messias. E para os discípulos de Jesus jejuar naquela situação seria como manter uma lâmpada acesa depois que o sol já havia nascido. Mas Jesus os alertava que quando não estivesse mais no meio deles, eles viveriam tempos em que precisariam jejuar.

“Mas virão dias quando o noivo lhes será tirado; e nesse tempo jejuarão.”

Para Jesus a espiritualidade do jejum expressava a fome e a sede de Deus. É o desejo profundo de uma comunhão maior com aquele que nos amou e nos chamou. É ressentir-se desta ausência tão presente.

Espiritualidade é também sentir continuamente que precisamos de mais sabedoria, é desejar ardentemente o discernimento, é ansiar por ouvir mais uma vez, a voz do mestre.

Quando leio as histórias de cristãos que tinham vida de oração e se dedicavam profundamente a meditação, percebo que todos tinham algo em comum; a fome de Deus. Alguns deles se mostravam extremamente incomodados com seu próprio pecado, como Agostinho e Lutero. Eles demonstravam em sua espiritualidade, a percepção da ausência de Cristo em suas vidas, e ansiavam por esta presença.

“Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus”

Espiritualidade é desejar o pão do céu tão concreta/ e profundamente quando desejamos o pão da terra. Deixemos que a fome do corpo nos relembre de nossa fome da alma; até o dia da grande festa de casamento, quando seremos supridos pela eterna presença.

25 de mar. de 2010

Simplicidade – dom de Deus ou disciplina humana?


Tiago 1,16-18
Meus amados irmãos, não se deixem enganar. Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes.

I Coríntios 14,1
Sigam o caminho do amor e busquem com dedicação os dons espirituais



Seria a simplicidade, assim como outras virtudes cristãs, uma questão de busca, de dedicação, disciplina, esforço consciente, escolha e ação? Ou a simplicidade seria um dom, um presente, uma obra de Deus em nós, iniciativa do Espírito Santo?

Perguntaríamos de outra forma: O que devo fazer? Tomar uma decisão, revisar meu estilo de vida e me disciplinar? Ou devo somente orar e esperar a ação de Deus em minha vida?

Com toda certeza encontraremos orientação bíblica que nos direcione para estas duas possibilidades.

Por um lado sabemos que nunca poderemos jogar a responsabilidade em Deus se não cultivamos as virtudes cristãs disponíveis aos filhos de Deus; por outro lado, também não queremos afirmar que a santificação é uma obra puramente humana, fruto do esforço próprio, pois não o é.

Poderíamos ainda perguntar: As disciplinas espirituais me tornam mais santo? Ou o fato de ser santificado me faz buscar cada vez mais as disciplinas espirituais ?

Difícil responder, não acha? A resposta provavelmente deve estar no equilíbrio entre as duas coisas.

“Aquilo que fazemos não produz em nós simplicidade, mas nos posiciona no lugar em que podemos recebe-la: diante de Deus, de modo que ele possa operar em nós a graça da simplicidade.” Richard Foster

Em outras palavras quando decidimos buscar a simplicidade e nos dedicamos em permanecer nesta direção, nos colocamos no ambiente em que a ação de Deus acontece.

Gosto da passagem bíblica em que Jesus visita o tanque de Betesta e cura ali um homem paralítico à 38 anos. O tanque de Betesda pode ilustrar estas duas realidades: De um lado o anseio e a busca humana por cura e intervenção divina, e por outro lado a ação exclusiva, sobrenatural e soberana de Deus em Jesus Cristo.

Ir para o “tanque” significa crer que Deus visita os homens e lhes presenteia com sua Graça. Não há garantias de sucesso, apenas busca e desejo da ação de Deus; e a esperança da sua visitação. Seria verdade que o anjo do Senhor visitava as águas do tanque e curava aquele que ali entrava? Não sabemos, mas sabemos que Cristo visitou aquele lugar e curou aquele homem.

Ter um tempo diário de oração não é nenhuma garantia de que vou alcançar uma intimidade com Deus e que vou aprender a discernir a sua voz; mas estou convicto de que a vida de oração é o ambiente da visitação de Deus onde aprendemos a ouvir sua voz e desfrutar sua companhia.

Ler a Bíblia todos os dias não é garantia de que alcançaremos a sabedoria de Deus; mas também sei que não existe sabedoria que não esteja submissa a palavra de Deus, não há conhecimento verdadeiro longe do temor da Palavra de Deus.

Freqüentar a igreja não é garantia de que encontraremos a comunhão cristã, mas sei que a convivência com os outros discípulos de Jesus é ambiente essencial no exercício do amor cristão.

Aprender a desacumular bens materiais, dividir com generosidade e definir prioridades na vida, podem não garantir que nos tornemos pessoas mais simples; mas sem dúvida, estes são caminhos percorridos por quem encontra a simplicidade.

“Aquilo que fazemos não produz em nós simplicidade, mas nos posiciona no lugar em que podemos recebe-la: diante de Deus, de modo que ele possa operar em nós a graça da simplicidade.”

Concluindo creio que enquanto esperamos a visitação do Espírito que opera em nós a verdadeira simplicidade e a virtude cristã, devemos visitar o ambiente da ação de Deus, as disciplinas espirituais, elas representam o anseio e a esperança de quem deseja mais de Deus e espera mais da vida.